Desde 2015, o Cepel trabalha no desenvolvimento de metodologias para reduzir o gap entre modelos climáticos e de simulação/otimização energética, estratégia que vem sendo adotada por meio do Projeto MudClima (Avaliação e Efeito das Mudanças Climáticas nas Previsões Hidrometeorológicas). As mudanças climáticas poderão exacerbar o estresse hídrico em diversas regiões do planeta, o que torna o nexus água e energia um componente crítico tanto do ponto de vista da estratégia de mitigação quanto de adaptação. 

O MudClima faz parte da Carteira de Projetos Institucionais do Cepel, e também compõe os projetos sob responsabilidade do Centro no Programa Sustentabilidade 4.0 das Empresas Eletrobras. Uma das vertentes do projeto se refere às pesquisas acerca das tendências observadas na precipitação e na vazão no decorrer dos últimos anos e às projeções futuras ao longo das próximas décadas nas bacias de drenagem das Usinas Hidroelétricas brasileiras. 

Nesse contexto, são tratados os seguintes pontos focais para o desenvolvimento dos estudos: o aumento da temperatura, as alterações nos regimes precipitações, além da ocorrência mais frequente de eventos climáticos extremos que impactam hoje, e impactarão no futuro, o setor energético em termos de fornecimento de energia e em relação à sua infraestrutura e ativos. A pergunta central é, “Como o setor deve se preparar para minimizar estes impactos e quais as estratégias de adaptação à nível nacional, regional e local?” 

Uma das maneiras de responder a esses pontos consiste no desenvolvimento de metodologias como as desenvolvidas no âmbito do Projeto MudClima. Os resultados preliminares do Projeto indicam que as projeções futuras até o final do século XXI (2100) apontam para uma redução da precipitação e da vazão na porção Centro-norte do Brasil e uma elevação na região Sul do país. Esses cenários devem ser cuidadosamente levados em consideração e requerem constante aprimoramento e pesquisa, uma vez que ainda existem incertezas associadas à representação da dinâmica atmosférica e do ciclo hidrológico. 

A metodologia será ainda aperfeiçoada através da utilização de um período de dados observados mais abrangentes (1975 a 2016) para a calibração e a validação dos parâmetros do modelo hidrológico utilizado nessa pesquisa. Além disso, os novos dados provenientes do INPE estão sendo tratados considerando o clima presente de 1961 a 2005 e o clima futuro de 2006 a 2100 por meio de um modelo climático regional alinhado a quatro modelos climáticos globais. 

Avanços nas pesquisas sobre mudanças climáticas 

Neste ano, mais passos importantes nos estudos relacionados à adaptação do setor elétrico brasileiro às mudanças climáticas foram realizados, como a publicação do artigo A Comprehensive Analysis of Observed and Projected Climate Extremes of Temperature and Precipitation in Belo Monte Hydropower Plant – Eastern Amazon, Brazil. A publicação foi realizada pela equipe formada por Katia Cristina Garcia, pesquisadora e chefe do departamento de Transição Energética e Sustentabilidade do Cepel; Wanderson Luiz‑Silva, ex pesquisador do Cepel e atual professor da UFRJ; Pedro Regoto, do INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais); além de Camila Ferreira de Vasconcellos, e Felipe Bevilaqua Foldes Guimarães estagiários do projeto MudClima. 

No artigo, a climatologia, as tendências observadas e as projeções futuras de extremos de temperaturas e precipitações são analisadas na área de drenagem do Usina Hidrelétrica de Belo Monte na bacia do rio Xingu. Dezessete indicadores climáticos foram selecionados para essa avaliação, e testes estatísticos foram usados para avaliar a significância e magnitude das tendências. 

A área de estudo exibe projeções de aquecimento estatisticamente significativas para o clima futuro. Quanto às projeções de precipitação, as mudanças futuras estão em direção a um clima mais seco. Também se identificou que os períodos secos podem durar mais nas próximas décadas, com ondas de calor e dias subsequentes sem precipitação. Clique aqui e confira o artigo na íntegra.  

Estes resultados são importantes para o desenvolvimento de outras atividades no âmbito do Projeto Mudclima, relacionadas aos estudos de vulnerabilidade e adaptação. Os impactos das mudanças climáticas podem modificar a disponibilidade de recursos naturais, afetando a subsistência das comunidades locais vulneráveis e intensificando os conflitos entre os usuários.  

Cepel em Paris: Progressão em cálculos do Índice de Vulnerabilidade Local  

Para fazer a avaliação destes impactos, o Cepel também vem desenvolvendo uma metodologia para cálculo do Índice de Vulnerabilidade Local, utilizando ferramentas de geoprocessamento, com o objetivo de identificar hot spots nas bacias hidrográficas, considerando as pressões por interesses econômicos, a sensibilidade das áreas indígenas e dos ecossistemas, além da vulnerabilidade climática. 

O recente estudo de caso realizado para validação do Índice de Vulnerabilidade às Mudanças Climáticas também utilizou a bacia do rio Xingu como referência e os resultados foram apresentados em setembro deste ano na Bienal do Cigré em Paris, pela pesquisadora e chefe do departamento de Transição Energética e Sustentabilidade, Katia Cristina Garcia.  

Delegação brasileira na Bienal do Cigré em Paris

O artigo, “Indigenous Vulnerability and Corporate Climate Change Strategy for the Electricity Companies in Brazil”, analisa os aspectos específicos da vulnerabilidade da população indígena às mudanças climáticas na Bacia do Xingu, propondo um índice que pode orientar estratégias de adaptação ao clima para as empresas de energia elétrica que operam nas proximidades de comunidades indígenas.  

 A identificação das terras e grupos indígenas mais vulneráveis e suas necessidades mais prementes, deve contribuir para mapear quais ajustes devem ser feitos para aumentar a resiliência dessas populações e, ao mesmo tempo, reduzir os impactos climáticos, sociais, e possíveis riscos reputacionais ou legais para as companhias de eletricidade que operam perto dessas áreas. Leia o artigo completo clicando aqui