O Ministério de Minas e Energia (MME) e a Empresa de Pesquisa Energética (EPE) publicaram, em consulta pública, dois documentos fundamentais para o futuro do país: o Plano Decenal de Expansão de Energia (PDE) 2035 e o Plano Nacional de Energia (PNE) 2055. Os estudos traçam as perspectivas e os caminhos estratégicos para o sistema energético brasileiro, equilibrando o crescimento da oferta com a transição para uma economia de baixo carbono. Como um marco importante, pela primeira vez, o planejamento de longo prazo utilizou um modelo integrado focado na otimização por custo total.
A ferramenta por trás dessa inteligência? O modelo MATRIZ, desenvolvido pelo Cepel. O uso do modelo no PNE 2055 consolida a posição do Cepel como o braço tecnológico estratégico do Estado, provendo os dados necessários para decisões que impactarão as próximas três décadas. Para entender o impacto desse reconhecimento e como as nossas ferramentas estão moldando o futuro do setor, conversamos com Maria Luiza Lisboa, pesquisadora do Cepel.
1. O PNE 2055 utilizou, de forma inédita, o modelo MATRIZ para a otimização por minimização de custo total. O que isso significa para o planejamento do país e qual a importância desse protagonismo para o Cepel?
Significa que o Brasil agora utiliza uma ferramenta de ponta, comparável aos melhores modelos internacionais (como o Times/Markal), desenvolvido no âmbito do Programa de Análise de Sistemas de Tecnologia de Energia da Agência Internacional de Energia (AIE), para definir a expansão das nossas cadeias energéticas de forma integrada, unindo eletricidade, petróleo, gás e até hidrogênio.
Desenvolvido pelo Cepel desde 2006 sob demanda do MME, o MATRIZ permite ao planejador analisar trajetórias de custo mínimo global, evitando processos repetitivos e garantindo uma visão sistêmica. Para o Cepel, ver a EPE utilizar o modelo no PNE 2055 é um caso de sucesso que valida anos de investimento em pesquisa, parcerias governamentais e alta capacitação técnica.
2. O PNE 2055 introduziu uma abordagem de otimização por custo total que é um marco para o setor. Qual o diferencial do modelo MATRIZ que o credenciou para esse desafio e como ele garante que os cenários de longo prazo sejam os mais eficientes para o país?
O diferencial está na visão integrada. Por muitos anos, o planejamento era feito de forma separada por setores (setorial), o que dificultava encontrar a melhor solução para o sistema como um todo. O MATRIZ quebra essa barreira: ele analisa todas as fontes de energia simultaneamente, garantindo uma expansão com o menor custo global e evitando as idas e vindas de cálculos isolados.
Desenvolvido em parceria com o MME e a EPE, o modelo foi moldado para responder aos desafios reais do Brasil, permitindo definir políticas públicas que unem segurança energética e redução de emissões de forma conjunta e eficiente.
3. Olhando para o horizonte de 2055, quais são os próximos passos na evolução das ferramentas de modelagem do Cepel para continuar na fronteira do planejamento energético?
Estamos em plena transição energética, com o avanço do hidrogênio verde e de novas formas de armazenamento que exigem modelos cada vez mais detalhados. O diferencial do MATRIZ é sua versatilidade: ele consegue abraçar novos setores além da energia, como a produção de fertilizantes.
O próximo passo é evoluir para uma versão ‘Matriz-Macro’, que conectará o planejamento energético aos indicadores da economia nacional. Isso permitirá ao Cepel prever não apenas a expansão do setor elétrico, mas como cada política pública de energia impacta o crescimento econômico, o emprego e o desenvolvimento de toda a sociedade brasileira.
O que é o Modelo MATRIZ?
Desenvolvido pelo Cepel, o MATRIZ é uma ferramenta para o planejamento integrado de sistemas energéticos. Diferente de modelos que analisam setores isolados, ele funciona como uma inteligência estratégica que simula a expansão de todas as cadeias, desde a extração de recursos (como petróleo e gás) e fontes renováveis até o consumo final.
Sua principal função é encontrar a trajetória de custo mínimo, selecionando as tecnologias mais eficientes em termos técnicos, econômicos e socioambientais. A sua utilização no PNE 2055 fundamenta, pela primeira vez, os exercícios quantitativos de longo prazo do Brasil com foco na minimização do custo total do sistema.
Sobre o papel institucional do Cepel
Ao colocar o modelo MATRIZ a serviço do planejamento de longo prazo do país, o Cepel cumpre com a missão fundamental de transformar pesquisas e alta tecnologia em soluções que garantem segurança e eficiência para o sistema energético. O reconhecimento desse protagonismo nos documentos oficiais do Ministério de Minas e Energia (MME) e da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) reforça a relevância estratégica do Cepel para o desenvolvimento nacional.